Maria Ivone Vairinho e Poetas Amigos

Julho 17 2009

O velho Manuel era um homem alto e pesado; olhos pequenos, ligeiramente rasgados e brilhantes, de tom pardo e vivos como os de uma criança. Os cabelos brancos ainda se mostravam um tanto vaidosos do seu vigor, emoldurando graciosamente as aquelas faces bordadas de rugas
Suas mãos eram mapas de gelhas, salpicadas de largas sardas acastanhadas mas ainda com alguma destreza. As pernas é que já não tinham a agilidade de antigamente e os pés arrastavam ligeiramente pelo chão. No entanto, o seu porte era ainda contornado de certa virilidade.
Cansado de olhar as grandes vespas do jornal,pois a vista para pouco mais dava, levantou-se do puído sofá, outrora verde, adornado de outonais folhas castanhas, saindo em direcção ao jardim perto de sua casa.
Enquanto caminhava lentamente, nesse fim de tarde, ouvia os pássaros num cântico murmurado de saudade pelos apetecidos dias de verão.
Manuel sentou-se num banco de madeira pintado de verde, debaixo de uma grande amoreira. As folhas fustigadas por ligeira aragem, cantarolavam nostálgicas melodias de despedida, e num recato de fim de tempo caíam uma a uma, no seu amarelo envelhecer, enquanto se ofereciam dóceis , em tapetes macios, aos pés daquele homem.
Na relva verdejante, bandos de crianças corriam e gritavam, como pássaros acabados de aprender a voar, no seu entusiasmo de brincadeiras que só a elas diziam respeito.
Havia ainda cães brincando com seus donos em corridas e saltinhos, de rabito espetado, numa felicidade sem limites. Enquanto outros, de pelo frouxo e olhar triste, fugiam de cauda encolhida na certeza de não serem desejados.
Manuel tudo via e entendia. Inclinou um pouco a cabeça para trás, observando o céu acinzentado, e um leve sorriso marcou-lhe a boca de lábios finos.” Os eternos contrastes e desigualdades”.
Um vento mais forte soprou num uivo de lobo, e o tapete de folhas mexeu-se num seco rostilhar, chamando a atenção daquele homem. Este olhou-as, agora atentamente, vergando lentamente o corpo. Os seu pés mal se viam submersos naquele acolhedor tapete matizado. Numa admiração de velho que pensara já nada o perturbar, reparou serem elas também velhas mas belas. Esticou os braços e segurou algumas nas suas mãos. Chegou-as ao rosto inalando emocionado seu cheiro a terra, enquanto duas lágrimas traiçoeiras lhe rolaram pelas faces molhando as folhas quase mortas.
Em atitude de abandono, ali permaneceu num abraço de cumplicidade, esperando serenamente algo de que sempre tanto medo tivera. Afinal a outra parte escura da vida também podia ser bela e repousante.
Eis que uma nuvem de lindas folhas castanhas, amarelas e encarniçadas desceram suavemente pela árvore envolvendo totalmente o ancião, adormecendo este em doce serenidade.

Liliana Josué

DANTE ALIGHIERI (DIVINA COMÉDIA)

 Poema meu dedicado a Dante Alighieri, assim como à sua obra literária "A Divina Comédia", em jeito de brincadeira.
Escritor italiano medieval, nascido em Florença em 1265 e falecido em Ravena em 1321.
 
 
DANTE

Revolvi-me estremunhada
no meu sono, em sobressalto
e deparei, perturbada
com alguém que lá do alto
me observava inquiridor
numa altivez superior.

Minha nudez afrontou
seu olhar de miopia
indignado apontou
esta solta anatomia.
Perguntei num grito farto
que fazia no meu quarto?

Respondeu-me ser o Dante
saído duma Comédia
e como homem importante
alertou-me p'rá tragédia
da vida cá neste mundo
tão corrupto, podre, imundo!

Indicou um Leopardo
pecador incontinente;
um Leão mal encarado
de violência imprudente
e uma Loba que em malícia
se ondeava com perícia.

Apontou uma montanha
entalada em céu e água
que expurgava gente estranha
em transe de reza e mágoa.
E os anjinhos piedosos
guardavam o céu briosos.

Desvendou em gesto trémulo
o Jardim de Beatriz
vaporoso e colorido
como ele a sonhou e quis
pois tocar-lhe... isso jamais
de retro pecados carnais.

O medo colou-se a mim
como um demo pegajoso
eu, neste terror assim
fugi do ser horroroso.
P'rá minha cama saltei
e aos lençois me enrolei.

De tremores e transpirada
acordei esparvoída
em esbracejos, transtornada
toda partida e moída.

Sonhos danados, então...
temas assim é que não!
 
Liliana Josué
 
 
publicado por cantaresdoespirito às 20:55
editado por mariaivonevairinho em 02/09/2009 às 22:12

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